Sábado, Agosto 19, 2006

MORAR COM O EMANUEL



Jesus é insistente: não pára de repetir que os seus discípulos devem comer a sua
carne e beber o seu sangue! Ainda hoje, tal linguagem é chocante, inaceitável para a
nossa razão e para a nossa sensibilidade. Sabemos, é certo, que São João escreve
depois da Ressurreição e que as palavras de Jesus só se podem aceitar e
compreender a essa luz. Uma das palavras-chave do discurso de Jesus é “morar”:
aqui e em tantas passagens do Evangelho… Morar com alguém é entrar na sua
intimidade, para ficar juntos. É isso que Deus quer: “estar com” com os homens,
“Emanuel”, para que nós estejamos também com Ele. Não podemos aceder ao sentido
profundo das palavras de Jesus sobre a sua carne a comer e o seu sangue a beber se
não nos colocarmos no registo do amor que exige a presença, o “estar com” dos dois
seres que se amam. No amor, é tudo ou nada. O seu amor por nós é tal que Ele quer
dar-Se na totalidade do seu ser e quer que esse dom dure sempre. Esta experiência já
acontece humanamente: num momento de intensa comunhão com o ser amado,
desejamos ardentemente que isso dure sempre. Ao escolher o meio do banquete
eucarístico para colocar em nós a sua presença de Ressuscitado, Jesus quer enraizar-
Se em nós e alimentar o gérmen da Vida eterna que será doravante a sua. Eis porque
Ele pode afirmar: “quem comer deste pão viverá eternamente”. Participar na
Eucaristia, comungar do corpo e do sangue de Jesus ressuscitado, é oferecer-Lhe o
nosso “espaço humano” muito concreto, toda a nossa pessoa para que Ele venha
habitar em nós. Então podemos, desde agora, ser um com Ele: “já não sou Eu que
vivo, é Cristo que vive em mim!”.

O CONVIVA




O conviva é aquele que “vive com” o tempo de uma refeição. Jesus faz continuamente
referência à relação que O une a seu Pai; eles vivem a convivência, Eu vivo pelo Pai”,
diz Jesus. Mas acrescenta: “também aquele que Me come viverá por Mim”. Em cada
Eucaristia, não estamos ao lado de Cristo ressuscitado, Ele vem morar em nós para
viver em nós. Temos de dizer, como São Paulo: “Não sou eu que vivo, é Cristo que
vive em mim”. É isso a comunhão, esta união total. É o momento de dizer: “Este
mistério é grande!” É grande, porque nunca acabaremos de nos maravilharmos e de
dar graças. Hoje, se Cristo vem habitar em nós, é para que nós habitemos n’Ele.
Vivamos as nossas Eucaristias verdadeiramente como um tempo de convivência.

Segunda-feira, Agosto 07, 2006

DESCER À TERRA


Há instantes que gostaríamos que durassem muito. Assim Pedro, Tiago e João teriam querido instalar-se nesta contemplação que deixava ver Deus: no alto do monte, lugar de revelação de Deus, a nuvem e a voz evocavam a sua presença e, depois, as testemunhas de ontem, Moisés e Elias, estavam lá para recordar a sua fidelidade. Mas aos apóstolos foi apenas permitido perceber no horizonte um sinal da ressurreição. Mas antes da ressurreição é preciso passar pela morte. Será a prova da fé para os discípulos, e então, mas então somente, eles poderão e deverão contar o que terão visto e ouvido com o risco de conhecerem também eles a morte, assinando assim com o seu sangue a mensagem do Ressuscitado.

A ESPERANÇA TRANSFORMADORA


A interpretação tradicional desta cena da Transfiguração liga-a à agonia e à paixão de Jesus, em que os três discípulos verão o seu Mestre humilhado. Mas podemos descobrir aí uma outra dimensão. Com efeito, a luz que transfigura o rosto de Jesus não pára no seu corpo. As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear». Cremos facilmente que o nosso corpo pára na nossa pele. É certo que temos um corpo bem definido, com peso e medida… Mas esquecemos demasiado que, na realidade, o nosso corpo está organicamente ligado a toda a criação. Somos tirados do pó da terra e, dizem os sábios, somos moldados pelo pó das estrelas. O nosso corpo não pode viver independentemente do resto da criação. O Filho de Deus, ao tornar-Se homem, assume toda esta dimensão corporal e cósmica. Integra n’Ele a totalidade do cosmos. Não vem salvar apenas as “almas”! Faz entrar toda a criação no movimento de amor que O liga ao Pai. A luz da Transfiguração que irradia sobre as vestes do Senhor é uma espécie de sinal de que toda a criação será, um dia, transfigurada pela glória de Deus.

Sábado, Julho 29, 2006

PEQUENOS GESTOS...


Jesus não cria pães e peixes a partir de nada. Cria a partir dos cinco pães e dois peixes do rapazito. A partir do pão dos pobres! Ao multiplicar os pães e os peixes, Jesus multiplica o dom do rapazito. Mas é ridículo alimentar uma multidão de cinco mil homens com tão pequena quantidade. Mas uma pequena quantidade pode ter um valor infinito. Jesus não olha como nós. O nosso olhar deve ser como o de Jesus. Quando damos amor, amizade, um pouco do nosso tempo ou simplesmente um sorriso, quando procuramos respeitar o outro, sem o julgar, quando fazemos um caminho de perdão… Jesus serve-se desse pequeno pouco para construir connosco, pacientemente, dia após dia, o seu Reino.

DEUS AMA INFINITAMENTE



Jesus não fecha os olhos diante dos homens: não somente vê a multidão, como se apercebe da sua fome. Antes de fazer o milagre, solicita a confiança dos seus apóstolos, esta confiança que Ele põe à prova. Então faz dois gestos: vira-se para Deus seu Pai, dando graças, e distribui o alimento. Que contraste gritante entre esta multidão que tem fome e o alimento que lhe vai ser oferecido, cinco pães e dois peixes. E ao mesmo quanta abundância! Não somente a multidão está saciada, mas sobram doze cestos. É a prodigalidade do Amor: Deus ama infinitamente, e este sinal operado por Jesus anuncia não o poder de um rei, mas o dom de Deus a todos os homens. Não somente Jesus veio para o maior número, mas veio dar a vida em abundância. Este sinal anuncia um outro sinal. Depois de ter comido, a multidão, no dia seguinte, terá ainda fome. Mas o alimento que Cristo ressuscitado oferecerá aos homens será a sua vida, e aqueles que comerem este Pão de Vida jamais terão fome.

Sexta-feira, Julho 28, 2006

UMA NOVA ETAPA



Estamos em plena aldeia global onde tudo se sabe rapidamente, onde a comunicação ganhou novo estatuto, onde novas possibilidades se abrem.
Depois de uma longa caminhada de Pré-Seminário chegou a hora de entrar numa nova etapa. Iniciamos hoje esta pequena aventura comunicativa que tem como finalidade dar a conhecer as actividades deste núcleo do Pré-Seminário e apresentar novos desafios. Desde o presente ano o Pré-Seminário da Diocese da Guarda encontra-se dividido em dois núcleos: o do Seminário Menor no Fundão para jovens até ao nono ano de escolaridade, e o núcleo do Seminário Maior da Guarda destinado a jovens a partir do décimo ano de escolaridade e àqueles que, embora estejam na vida activa, também sentem que devem fazer uma caminhada vocacional na procura do projecto de Deus para as suas vidas. O núcleo do Seminário Maior está aberto a todos os que sentem que são chamados a sair do vulgar e arrisacar algo mais para as suas vidas. Esperamos que este blog tenha muitos frequentadores e que apareçam sugestões e comentários. Estamos também abertos a receber artigos que queiram partilhar connosco. Para isso podem contactar:Seminário Maior da guarda, R. D. José Alves Matoso, 7, 6300-182 Guarda, para o Telf. 271 200 205, ou ainda para http://www.preseminariodaguarda.blogspot.com/, ainda para smguarda@sapo.pt .
Termino com as palavras de D. António dos Santos acerca do Pré-Seminário :“ O Pré-Seminário há-de ser, cada vez mais, na nossa Diocese caminho para o discernimento e crescimento vocacional. Consegui-lo-à com oportunas formas de acolhimento e oferta de ocasiões informativas e formativas para aqueles adolescentes e jovens que estão à descoberta da vocação ou que, já determinados a segui-la, se vêem obrigados a adiar a entrada no Seminário por diferentes circunstâncias familiares ou escolares.É, neste contexto, que gostaríamos de ver crescer, ainda mais, na Igreja diocesana da Guarda, esta forma de acompanhamento vocacional, proporcionando aos jovens resposta plena aos anseios e interrogações que podem surgir na sua caminhada para Deus”.

Sexta-feira, Julho 21, 2006

INSTITUIÇÃO EVANGÉLICA DAS FÉRIAS


«Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco». É a instituição evangélica das férias! De facto, a multidão era tão numerosa que os Apóstolos nem tinham tempo para comer. Deviam estar esgotados, tanto mais que regressavam do primeiro envio em missão, que não terá sido propriamente um tempo de repouso. Conhecemos a vida de Jesus, a sua missão, as grandes fadigas, as noites em oração, sem dormir, após um dia extenuante… Numa das travessias de barco, aproveita mesmo para repousar um pouco e dormir… Assim, Ele sabe estar atento à fadiga dos seus companheiros. Convida-os a respeitar também as exigências da natureza corporal, a ter um pouco de repouso. E nós, hoje? Sabemos bem que as férias não são um luxo, se corresponderem àquilo para que existem: precisamente para respeitar a nossa natureza humana, que exige tempos de relaxe, de recuperação, não apenas física mas também intelectual e espiritual. As férias não são um tempo de ócio, mas de “re-criação”, de retomar energias. Sabemos que há ainda muitos homens, mulheres e crianças que são explorados como vulgares máquinas para produzir. Isso não é respeitar a vontade criadora de Deus. Os Apóstolos diminuem, as funções pastorais aumentam… a fadiga também. Cabe a cada um tirar as devidas consequências! (S.d’Aujourd’hui)

DEUS TEM PIEDADE


Uma grande multidão pode abafar física e moralmente. Compreende-se que Jesus queira preservar os seus apóstolos: eles foram ao encontro das multidões para as ensinar e fazer milagres, então Ele propõe-lhes para se afastarem para um lugar deserto a fim de retomar o fôlego e não perderem o sentido daquilo que é essencial. Mas a multidão tem fome de palavras e de sinais, é ela que dirige o curso dos acontecimentos, parece querer recordar a Jesus e aos seus discípulos que eles não têm o direito de fugir. Como reagem os apóstolos? Não sabemos. O que sabemos é que Jesus se enche de piedade; este sentimento que o anima revela-nos algo do rosto do Pai. É o coração de Deus que bate no coração de Jesus cheio de piedade. Sim, Deus tem piedade da multidão na margem do lado Tiberíades, como outrora teve piedade do seu povo escravo no Egipto. E quando Deus tem piedade, Ele age (S.d’Aujourd’hui).

Domingo, Julho 16, 2006

TESTEMUNHAS DO AMOR DE DEUS


“Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois. Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros”. O apelo dos Apóstolos está ligado ao seu envio, à sua missão. Serem os companheiros de Jesus, não para ficarem abrigados perto d’Ele, mas para serem enviados comos suas testemunhas até aos confins da terra. Ele envia-os dois a dois. Sem dúvida, porque na altura um testemunho só era reconhecido como autêntico se levado por duas testemunhas. Mas, mais profundamente, Jesus veio para colocar os homens na “circulação do amor”. Deus criou os homens para serem à sua imagem. Como “Deus é Amor”, os homens serão imagens de Deus na medida em que construírem juntos relações de amor fraterno. Ora, eles recusaram isso. O espírito do mal é chamado de diabo, aquele que divide em vez de unir. Jesus veio para acabar com a divisão. Ele é aquele que reconcilia os homens com Deus e entre si. Eis porque Jesus envia os Apóstolos dois a dois: para que sejam primeiramente, pelo seu comportamento e pela sua vida, testemunhas desta obra de reconciliação. A salvação nunca é individual, é colocada na relação dos homens entre si, no movimento de amor de Deus. A missão dos Apóstolos é, pois, de lutar contra o mal que divide e corrompe. Então, compreendemos melhor porque Jesus dá conselhos de pobreza. Encher-se de riquezas materiais é arriscar cair na armadilha da possessão egoísta, é entrar no círculo infernal da vontade de poder, da inveja. É centrar-se sobre si mesmo em lugar de dar lugar aos outros. É obscurecer o seu olhar interior e não ser mais suficientemente disponível para acolher o outro. É sempre válido para todos os baptizados cuja missão é serem testemunhas da Boa Nova no coração do mundo!

TESTEMUNHO DO "NÓS"



Jesus envia os discípulos dois a dois. Ele sabe que a sua missão será difícil de cumprir. Mesmo Ele, Jesus, fez-Se acompanhar de uma equipa. O testemunho é sempre um “nós” para nunca se falar em nome próprio mas, com outros, em nome daquele que envia. Algumas recomendações a estes peregrinos da Boa Nova: contar apenas com Deus; pôr-se a caminho para se fazer peregrino; aceitar a hospitalidade para se apresentar como um pobre; não forçar as portas para respeitar a liberdade. Quanto à mensagem a proclamar, é a mensagem do Mestre: “convertei-vos!” E quanto aos actos, são os mesmos de Jesus: expulsar os demónios e curar os doentes. Decididamente, o servo não é maior do que o seu mestre, e o enviado faz sempre referência àquele que o envia. Hoje, o “nós” é o da Igreja. Oxalá ela possa contar apenas com Deus, fazer-se peregrina, apresentar-se pobre, respeitar a liberdade dos homens…

Quinta-feira, Julho 06, 2006

A CADA UM O SEU CHAMAMENTO


Cada um de nós pode reflectir qual é o chamamento pessoal do Senhor, à volta de três palavras: vocação – graça – dificuldades. Qual é a minha vocação, a que é que Deus me chama, aonde me envia? Como se manifesta em mim a sua graça? Quais as dificuldades que encontro, como as ultrapassar?

PROFETA/PROFETAS


Afinal, o que é um profeta? A ideia mais espalhada é que é alguém que prevê e anuncia o futuro. Esses profetas não faltam hoje… Ora, como Ezequiel, o verdadeiro profeta está habitado, em primeiro lugar, pelo Espírito Santo, para ser em seguida enviado aos seus irmãos em humanidade e lhes anunciar a Palavra de Deus. Mas não se trata de uma missão de descanso! A Palavra de Deus inquieta sempre, porque convida os homens a descentrarem-se de si mesmos. Ezequiel é enviado a um povo de rebeldes, que têm o rosto duro e o coração obstinado. Nestas circunstâncias, não é fácil fazer-se ouvir. A missão do profeta não é prazer. Jesus fez a experiência… Basta ver a atitude dos seus conterrâneos… A própria família tinha tentado impedi-lo de falar. Ora, pelo nosso baptismo e confirmação, todos somos chamados a ser profetas, a deixarmo-nos habitar pelo Espírito, pela Palavra de Deus, para nos tornarmos arautos e testemunhas onde vivemos. O Concílio Vaticano II, recuperando esta missão profética dos baptizados, declara que estes últimos recebem todos o sentido da fé e a graça da palavra, a fim de que brilhe na sua vida quotidiana a força do Evangelho. Os cristãos não devem esconder este testemunho e esta palavra no segredo do seu coração, mas devem exprimi-lo também através das estruturas da vida do mundo. Há que tomar a sério esta missão profética!

OS NOSSOS OLHOS ESTÃO POSTOS NO SENHOR?


Os ouvintes estão admirados, chocados… Como poderia Jesus fazer milagres quando se punha em dúvida as suas palavras de profeta e os seus actos de salvador? Com efeito, os seus conterrâneos olham-mo apenas com os olhos de carne, só vêem n’Ele o filho do carpinteiro com quem tinham jogado, trabalhado, escutado a lei na sinagoga… Não reconhecem n’Ele o enviado de Deus. Falta-lhes o olhar da fé para ler no seu ensino a mensagem de Deus e nos seus milagres sinais do Todo-Poderoso. E nós, como está o nosso olhar de fé, ao vermos Jesus e os seus sinais de salvação?